Por: Mauro Garcia — DRT: 1279/MA
São Luís (MA) — Um projeto voltado para crianças da Vila Dom Luís busca unir cultura, entretenimento e ação social por meio da tradição da quadrilha junina Mocinha do Sertão. A iniciativa é realizada pelo Instituto Social Victor Silva, em parceria com o grupo mirim da quadrilha, que participa dando suporte às atividades.
A ação procura oferecer às crianças acesso a momentos de lazer e atividades culturais que nem sempre estão ao alcance de todas as famílias. Durante o evento, além do café da manhã, houve distribuição de brinquedos para as crianças participantes, proporcionando momentos de alegria e confraternização.
Segundo Arerê Lambertime, diretor artístico da Mocinha do Sertão, a iniciativa representa um anseio da comunidade e amplia o trabalho desenvolvido pela quadrilha.
“Esse projeto é um anseio para nossas crianças. O Instituto Social Victor Silva mantém o grupo mirim da quadrilha Mocinha do Sertão e vem levando entretenimento para crianças que não têm oportunidade de participar de atividades como essa”, afirmou.
Arerê ressaltou que o Instituto Social Victor Silva é responsável pela realização do evento, enquanto a Mocinha do Sertão participa como parceira, oferecendo suporte às atividades.
Um legado que atravessa gerações
Nascida e criada na Vila Isabel, Aline Nayane também possui uma relação familiar com a história da Mocinha do Sertão. Neta de Victor Silva, ela participou da quadrilha na fase adulta e acompanhou a trajetória do grupo ao longo dos anos.
“Desde pequena, nasci e fui criada no bairro. Participei da Mocinha do Sertão quando era adulta. Depois saí, já mais velha, porque o trabalho não permitia mais, mas eu amava participar de cada momento”, contou.
Para ela, a permanência da quadrilha representa a continuidade de um legado familiar e cultural.
“Hoje eu me orgulho de ver até onde eles chegaram, com perseverança e muita persistência. Meu avô morreu, mas meu tio Arerê Lambertime continua carregando esse legado com força e garra, assim como toda a diretoria”, disse.
Ela também destaca que a atuação da Mocinha do Sertão ultrapassou as apresentações juninas.
“Não ficou somente a quadrilha. Existe um projeto que envolve estudos e acaba trazendo benefícios para outras crianças da área e também para crianças que não são daqui. Nós, como netos, também participamos de tudo isso. É muito lindo e gratificante”, afirmou.
Como nasceu a Mocinha do Sertão
A história da quadrilha está ligada à trajetória de Epifania Maria da Conceição, ex-esposa do saudoso Victor Silva e uma das responsáveis pela criação da brincadeira.
Presente no evento, Epifania relembrou os primeiros passos da Mocinha do Sertão e destacou a importância de preservar a cultura e o trabalho construído ao longo de décadas.
Segundo ela, a ideia surgiu a partir da reunião de um grupo de mulheres interessadas em criar uma manifestação cultural.
“Fundamos e começamos essa brincadeira. Éramos 12 mulheres. Depois saíram duas, depois saíram todas, ficando somente eu”, relatou.
Epifania contou que inicialmente pensou em montar uma dança portuguesa, mas os custos das vestimentas dificultaram a ideia. Também chegou a considerar uma apresentação de boiadeiro.
“Então achei melhor colocar uma quadrilha junina. Fui conversar com minhas colegas à noite. Fui dormir e, quando acordei pela manhã, chamei Victor e disse: ‘Vou colocar uma quadrilha, e o nome da brincadeira vai se chamar Mocinha do Sertão’.”
Victor Silva, segundo ela, apenas perguntou se realmente iria montar a quadrilha.
“Eu disse que sim, que iria montar uma quadrilha junina.”
Os primeiros anos foram marcados pela falta de recursos e pela criatividade dos integrantes.
“Logo no começo foi difícil. Meus tambores eram latas grandes de leite Itambé, um pandeiro e um tambor que estava no ensaio do boi da Madre Deus”, recordou.
Cultura e ação social
Para Epifania, manter viva a Mocinha do Sertão significa preservar uma história construída durante aproximadamente 36 anos de atividades culturais.
“Será muito importante continuar viva a cultura e as ações do Instituto Victor Silva. Apesar de ele já ter ido morar no céu, o legado dele ficou, com 36 anos de cultura da Mocinha do Sertão.”
Ela também demonstrou orgulho ao falar sobre a continuidade do trabalho por parte da família.
“Tenho muito orgulho e dou graças a Deus por meu filho ter assumido a responsabilidade e tomado conta da Mocinha do Sertão e do projeto Victor Silva.”
A iniciativa busca manter a cultura próxima das novas gerações e das famílias da comunidade, unindo tradição, lazer e solidariedade.
Além das atividades culturais e do café da manhã, as crianças receberam brinquedos durante a ação, reforçando o caráter social do projeto e proporcionando um momento especial de convivência para os participantes.
“Estamos aí com a Mocinha do Sertão fazendo alegria das crianças, das mães e dos pais de família”, concluiu Epifania.
. Netos bisneto de Victor Silva













